Casa Literária entrevista: Rodrigo Ortiz Vinholo, autor do romance LGBT ’33’

Voltado ao público Millenial, 33 não traz um relacionamento conturbado e cheio de inimigos e obstáculos para enfrentar. Rodrigo Vinholo queria um romance em que as protagonistas só querem entender o que significa viver em um mundo que às vezes é complicado demais até nas coisas simples. Na Entrevista a seguir, o autor fala mais da obra, que será lançada pela Casa Literária por meio de campanha de financiamento coletivo.

33, romance de Rodrigo Ortiz Vinholo, em capa de Henrique Morais.

1 – No geral, além de ser um romance contemporâneo, sobre o que fala o livro 33?

Eu diria que 33 é basicamente sobre o significado que as pessoas dão para as coisas e para as suas relações. Toda a desconexão que as pessoas sentem, especialmente os jovens e não-tão-jovens do nosso mundo (se formos confiar nas matérias de jornal, não anda nada fácil ser Millenial!).

Para falar a verdade, a ideia do livro nasceu para atender a uma vontade que eu sempre tive: eu gosto de histórias com romance, mas sempre me frustra o modo como eu só queria ver aquelas pessoas curtindo o relacionamento bem, sem forças tentando acabar com a relação, sem crises no próprio relacionamento, coisa assim. Eu queria uma história que conseguisse ter como foco o relacionamento e as coisas legais da vida de um casal, sem que isso fosse o problema que as personagens enfrentam.

33 é um livro que basicamente mostra o “para sempre” do “viveram felizes para sempre”, de um jeito razoavelmente pé no chão. E conforme o escrevia, sabia que ele tinha que ser divertido e envolvente, e já que o conflito não poderia ser na relação das personagens, e que o enredo se passa em um único dia, naturalmente esses problemas e dúvidas reais formaram o plot. Clarinha e Ju não tem inimigos para enfrentar, nem problemas financeiros, nem drogas, nem crimes, nem doenças mortais, nem dragões, monstros, espadas, cavaleiros, passarelas da moda, investigações nem nada mais – elas só querem entender o que significa viver em um mundo que às vezes é complicado demais até nas coisas simples. E querem comer comidas boas, ficar juntas e rir de piadas e filmes péssimos.

2 – Sua obra tem um viés LGBT, tratando de um relacionamento entre duas mulheres. E mais: uma mulher trans e uma cis gênero. Como autor homem cis, houve necessidade de leitura sensível? Como foi este trabalho?

Sim, com toda certeza! Desde o começo, confesso, fiquei com aquela sensação de “será que realmente devo fazer isso”? Mesmo com pesquisa de experiências de pessoas trans e de relacionamentos LGBTQ+ em diferentes variações, eu sabia que precisaria de muito cuidado. Felizmente, na época que comecei a escrever, passei a acompanhar o curso online Escreva Trans do Vic Sackville (vulgo Alliah), que eventualmente contratei para uma leitura sensível.

Faço propaganda de graça: foi a melhor escolha que fiz. Sério. Mesmo para o plot em geral e para referências, construção de humor e drama, não faltaram indicações extremamente técnicas e profissionais que transformaram a obra. Mas é claro que o principal ponto foi nesses cuidados com ambientação e com criação do pano de fundo e problemáticas da história das duas, em especial de Juliana.

Como autor cishet, tanto por escolha própria quanto por orientações do Vic, ainda que preconceito e algumas problemáticas de gênero surjam na trama, propositalmente me omiti de falar de assuntos como disforia, que julgo que não conseguiria explorar bem com minha experiência de vida, e que julgo que mesmo com muita pesquisa eu ainda poderia não apresentar de modo devido.

O escritor Rodrigo Ortiz Vinholo. (Foto: Arquivo pessoal)

3 – Quais os níveis de dificuldade de abordar uma relação de pontos de vista tão diferentes e de realidades tão diferentes das suas?

Um dos motivos que escolhi escrever 33 do modo como fiz foi exatamente para explorar realidades diferentes da minha, e levar ao público de maneira mais natural e simpática possível. Ju e Carlinha, felizmente, foram personagens que nasceram quase prontas, e que pareciam conversar comigo e desenvolver muito da história por conta própria. Sei que esse é um clichê que muitos autores falam normalmente, mas é verdade: eu raramente travava durante a organização do enredo ou durante a escrita, porque os diálogos saíam facilmente e tudo se desenvolvia de modo orgânico. (E a Ju fala demais! Ela foi quem eu mais tive que editar no processo inteiro.)

Muito dos pontos de vista delas se originaram de uma coleção de pessoas que conheço. As piadas de Ju são quase todas minhas – podem me julgar -, e várias das situações são referências a pessoas reais, ainda que nem todas as reações tenham sido exatamente como na história. Nesse sentido, essa parte foi fácil.

O que foi mais difícil, e é onde a pesquisa, leitura beta e muita revisão foram necessárias, foi no tratamento dos problemas de família das duas e em especial no estado psicológico das duas, em especial de Clarinha. Trabalhar depressão não é fácil, e requer muita responsabilidade, especialmente quando a conversa tende a ir por caminhos filosóficos e estranhos como os que as duas tendem a preferir.

No fim, cheguei a um ponto em que conclui que mesmo as discussões mais amplas da obra não seriam as mesmas se Ju e Clarinha não fossem quem eram, apesar das dificuldades e diferenças da minha realidade para as delas. O que passaram e o modo como passaram e quem se tornaram nesse processo definem muitos dos pontos mais complicados de tudo que o livro se propõe.

4 – Há menções ao clássico Alice no País das Maravilhas na obra. Como a metáfora atua na narrativa?

Há um sentido mais direto que é na participação do livro na narrativa. Sem me aprofundar nos spoilers, Clarinha é fanática pela obra, e além de menções diretas a ela, isso atua diretamente em suas motivações e muito na maneira como prefere ver o mundo e questioná-lo.

E aí chegamos no sentido indireto da referência: toda a narração, mesmo que seja extremamente pé no chão, tende a uma leveza muito sonhadora. As duas, ainda, em suas brincadeiras, perguntas e manias, se aproximam muito de Alice e de outros personagens. Não que sejam infantis, ilógicas ou irresponsáveis, mas existe nelas uma constante de abstração e análise, de uma vontade de desconstruir todas as peças do mundo ao redor para ver se ele passa a fazer sentido, e entendo que por vezes pode parecer apartado de suas idades.

A história também é montada de um jeito meio “alicesco”, com capítulos em sequência cronológica (ainda que com um flashback ou outro) em que as duas vão pulando de situação em situação. O raciocínio não se quebra, com os conceitos estranhos e discussões se acumulando de um capítulo para o outro, mas os personagens da cidade vão e vêm como o Gato de Cheshire, o Coelho Branco, o Chapeleiro Maluco e companhia.

Como com Alice, a experiência das duas, em toda sua subjetividade, é o principal, e é moldada pelas experiências, pessoas e cenários. Mas também como Alice, o foco, no fim, é Alice.

5 – Quem tipo de público espera atingir e o que ele pode esperar de 33?

Acho que a resposta curta seriam “Millenials”.

Não estou nem brincando. Este é um livro sobre pessoas normais em crise com seu lugar no mundo, e acho que a geração que mais passa por isso, atualmente, somos nós, Millenials.

Mas se você é de gerações anteriores ou posteriores, não se acanhe: 33 é um livro para quem já se questionou sobre a lógica do mundo e das pessoas ao redor. Para quem já se achou fora de lugar, ou que o mundo todo estava errado, ou que as outras pessoas eram incompreensíveis.

Nesses tempos confusos que vivemos, como em todos os tempos confusos, entendo que é o tipo de leitura que vai ajudar a explicar, ou ao menos a questionar o suficiente para que você sinta que não está só em seus questionamentos. Seja você mulher, homem, gênero fluído, agênero, trans, cis, gay, lésbica, bi, hétero, pan ou qualquer outra orientação ou identidade.

É um livro pra quem gosta de livros, e de comida, filmes, cachorros, gatos e casais felizes. Especialmente casais felizes, apesar dos pesares da vida.

Espero que no processo consigam rir um pouco, e sentir o coração aquecido e, também, quem sabe, chorar um pouco. Às vezes é bom e necessário.

Muito obrigado.

Last modified: 02/06/2019

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